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Quem é o “cara legal” que perdeu US$ 2 bilhões no UBS
20/09/2011 | 12:25:42

Gustavo Kahil, de Exame
 
Kweku Abodoli foi algemado enquanto trabalhava na sede londrina do maior banco da Suíça

São Paulo – “Eu preciso de um milagre”. Esse foi o último post no perfil do Facebook de Kweku Abodoli, antes de ser algemado. O cara simples e que não gostava de ostentar riquezas, segundo o seu pai John, teve uma quarta-feira diferente. Após anos realizando operações não autorizadas, como ele próprio admite agora, o operador do UBS recebeu uma visita nada agradável do pessoal do controle de risco da unidade londrina, onde ele trabalhava, em sua mesa. Eles queriam saber como Abodoli conseguiu perder 2 bilhões de dólares com as operações de ETFs que gerenciava.

As respostas dele foram suficientes para que o maior banco da Suíça batesse na porta da polícia de Londres. Na quinta-feira, bem cedo, a visita que o “rogue trader” recebeu em sua mesa foi ainda mais desagradável. Desta vez, policiais o cercavam. O “cara legal”, segundo a análise do proprietário de seu ex-apartamento alugado, saiu do prédio já algemado.

O rombo foi tão grande que Abodoli ocupa agora a 3ª posição na galeria dos maiores trapaceiros do mercado financeiro, atrás do quase insuperável ex-operador do banco francês, Société Générale, Jerome Kerviel (US$ 6 bi) e do “Sr.5%” da japonesa Sumitomo Corp. (US$2,6 bi). Ele contratou o escritório de advocacia Kingsley Napley, que defendeu outro integrante do hall da fama, Nick Leeson – que conseguiu quebrar o banco inglês Barings.

Segundo a acusação da polícia, Abodoli “desonestamente abusou da sua posição com a intenção de conseguir ganhos para si, causando perdas para o UBS ou colocando o UBS em risco de perdas”. O operador chorou enquanto ouvia as acusações, disse a mídia britânica hoje. O valor perdido deve arranhar os resultados do banco no 3º trimestre, causar demissões (além a do seu chefe que já pediu pra sair) e por em risco os bônus dos funcionários de todo o banco.

Mas como ele conseguiu perder tanto dinheiro? Abodoli trabalhava com os chamados ETFs sintéticos. Um ETF comum é normalmente uma cesta de ativos que tenta imitar o desempenho de algum índice. O sintético tem a mesma função, porém o faz sem deter os ativos que compõem tal índice de referência, mas com o uso dos derivativos desses ativos. Desta forma, qualquer mudança no câmbio entre o derivativo e o ativo que ele tenta seguir precisa ser protegido (hedge), caso sejam de moedas diferentes.

Para alguns operadores, Abodoli pode ter sido derrubado pela decisão do Banco Nacional da Suíça que fixou uma cotação mínima de 1,2 franco suíço ao euro. O franco suíço despencou 8,7% em relação ao euro em um dia, a maior queda desde a criação da moeda única. Por exemplo, quem estivesse operando um ETF em franco suíço que tenta seguir os constituintes do S&P 500, em dólar, pode ter sofrido uma grande perda sem a proteção. Só um milagre mesmo para livrar a barra de Abodoli.

   
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